Autores

Cor Gamboa Marques
Cor Silva Vitória

Agradecimentos

Figuras e Factos
Figuras e Factos

Nesta área do site a que agora se dá início, procuraremos difundir imagens e descrever factos onde cada um dos que prestaram serviço na Guarda Fiscal e Brigada Fiscal, em todos os postos, possa reconhecer-se e recordar camaradas e acontecimentos em que participou ou de que teve fundado conhecimento.
Reservamos ainda este local para fazer referência a figuras que, por serem relevantes, mereçam que delas haja memória.



Uniformes 1911 – 1934

Soldados da Guarda Fiscal de serviço no Cais das Colunas - Terreiro do Paço e junto a linhas de caminho de ferro, em Lisboa, com uniforme de acordo com o plano de Novembro de 1911.
Fotografias do fotógrafo francês Charles Chusseau – Flaviens, com o título garde fiscale, provávelmente obtidas nos primeiros anos da República.
 

 
Centenário da Guarda Fiscal 17SET1885 – 17SET1985

Medalha comemorativa do Centenário da Guarda Fiscal da autoria de Cabral Antunes.
Foram cunhados 5000 exemplares numerados.

 
Centro de Instrução de Alistados 1945

 
Brasão

 
A mulher do Guarda Fiscal

 

Da mulher enquanto meia parte do casal humano algumas coisas se têm dito, ficando nomeadas e conhecidas na História umas pelo que delas se referiu de maléfico, outras, de heróico, outras, de trágico, e outras até do banal quotidiano.
   A Eva do Adão levou-nos a todos à ruína, por acção fatalmente marcante, tanto no registo das desgraças – a monumental história bíblica quase se inicia com ela –, como nos efeitos:  nenhum cristão duvida de que o péssimo orçamento que ameaça governar-nos, com todos os cataclismos que traz no ventre, tem a sua génese na fatídica trincadela na maçã, sob a complascência de um contemporizador Adão. O certo é que, por esta razão, a Eva do Adão ficou para sempre com referência privilegiada numa história que todos conhecem, sendo inconcebível uma genealogia que a não inclua.
   Nas peripécias que levaram à fundação de Roma, conta-se a história das mulheres sabinas que heroicamente se intrometeram entre os dardos disparados de um lado pelos pais, sabinos, e do outro pelos maridos, romanos, logrando o entendimento entre as duas partes.  A esta acção se ficou devendo a união de dois povos, que haveria de levar à construção do grande Império da Antiguidade. Em honra e louvor de mulheres tão corajosas e abnegadas, Rómulo, o então rei de Roma, atribuíu o nome delas às cúrias em que dividiu o povo, e a memória do seu feito perdurou até aos nossos dias.
   Pela  “mísera e mesquinha” (Camões dixit) galega Inês de Castro se apaixonou o infante D.Pedro, a quem ela se entregou sem reservas, em amor perdidamente correspondido. Não o consentiu o pai Afonso IV, que a mandou matar, insensível a rogos e à consequente orfandade dos netos, entretanto gerados. Comovente, dilacerante e trágica história esta, mas que teve honras de celebração na História, na Escultura e sobretudo na Literatura, ao ponto de se ter transformado num “portuguesismo”, ou seja, em elemento identificativo da cultura portuguesa. 
   Xantipa foi a mulher de Sócrates, não esse, o José, mas o luminoso filósofo da Antiga Grécia. Estava sempre mal  humorada, era desleixada com a vida do lar, não muito graciosa, e um dia , a terminar uma discussão com o marido Sócrates, atirou-lhe com um balde de água. Com tais atributos, num quotidiano rasca, não era de prever que passasse à História...mas passou.
   E a mulher do guarda fiscal?... Alguém conhece?... Alguém ouviu falar dela? Das suas virtudes ou dos seus defeitos? De merecimentos ou desmerecimentos?...  Não. Nunca. Eu próprio me arrisco à Fama pelo atrevimento de, pela primeira vez na História, através de mim se estarem a formular tais perguntas. E, no entanto, depois que eu tenha dito o que vou dizer se verá quanto injustiçada foi esta figura quase tutelar do guarda fiscal, ou, mesmo, da Guarda Fiscal.
   É dia de festa. O culminar de um longo namoro, com efusivas manifestações de amor e protestos de uma vida a dois cheia de filhos e harmonia. Ele, guarda fiscal; ela, moçoila cheia de encantos, a respirar vida e energia. Na cerimónia do casamento, o ministro oficiante proclama, alto e bom som: “... deixareis pai e mãe e sereis, a partir de hoje, dois numa só carne...”, isto é, partilhareis os corpos, partilhareis os alimentos, partilhareis os gostos e os desgostos, as alegrias e as tristezas, os segredos, os projectos, enfim, tudo. Isto lhes foi dito, como a qualquer outro par de noivos.
   Sabemos como a Vida, quando do pedestal teórico desce ao quotidiano, se transforma em vida, plena, às vezes, mas, mais vezes ainda, mesquinha e, quase sempre, cheia de condicionantes sociais, económicas, familiares, profissionais..., atingindo por igual todos os mortais casais de humanos. Mas também aqui, como diria George Orwel, há casais mais iguais que outros... e o nosso é um deles.
   Estamos no dia que se segue à licença de casamento, ou, se o leitor preferir, à Lua de Mel. Quando, para qualquer outro casal, uma nova rotina se define, composta, desde a primeira manhã, de responsabilidades, tempos e actos programados e previsíveis, o nosso é logo na primeira noite brutalmente arrancado à cama ainda quente do amor, porque a metade masculina foi chamada a acorrer em reforço de uma imprevista acção operacional de grande envergadura. O guarda fiscal já sabia que a sua vida iria passar por momentos destes, e a sua mulher... também. Mas enquanto àquele se perspectiva uma folha recheada de bons serviços a que, com muita probabilidade, corresponderão reconhecimentos, louvores e até condecorações, esta ficará na solidão da noite da casa vazia, amputada da outra metade de sentimentos que o padre lhe anunciara como direito seu, fragilizada e ansiosa pela ignorância do que se passa lá fora e pela tardança do regresso  ...,tudo a troco de esquecimento, de nada, ou, talvez, da indiferença do marido regressado, extenuado e sonolento...
   Foi assim a primeira noite. Outras se seguirão, intempestivas. Ou, então, programadas... ao implacável ritmo das marés, das luas, das efemérides. A noite! Sempre a noite! Tema de poetas que a louvaram em poemas imortais, tempo romântico de sonho e de introspecção, tempo de serenidade, “ Ó noite, momento de doçura, ainda que negra / É sempre em tua paz que toda a obra se acaba!” (M. Ângelo)! Mas tão madrasta para os que têm de viver ao sabor das variações que ocorrem em seu seio, “Noite das coisas, terror e medo / Na aparente paz dispersa...” (Sophia de Mello B. Andresen)! A mulher do guarda fiscal vive umas na ansiedade da espera, no sobressalto da chamada, na angústia da ausência... Das outras, de ritmos progressivamente alterados e desajustados ao natural ritmo circadiano, vive muitas das suas nefastas consequências, num conformismo de fado irremediável, como irremediáveis são as leis da Natureza... Do seu cansaço, do seu sofrimento solidário com o do marido, tantas vezes esforçadamente mascarado de alegria, não rezarão, porém, escalas de serviço, nem relatórios de inspecção, nem nada: a mulher do guarda fiscal não conta!
   Mas existe. Numa existência, porém, fragmentada: por um lado, a existência necessária e devida, comum a todos os seres; por outro, uma existência consentida, mas não desejada, que lhe é peculiar enquanto mulher de guarda fiscal. Estranha questão esta, mas dolorosamente verdadeira. A mulher não é a confidente da importante porção da vida que coube em sorte ao guarda fiscal – a profissional. Ela não pode ter conhecimento de muitas das actividades fiscais para que ele é nomeado. As metades que inicialmente se juntaram numa só carne, aqui se separam quase a sangrar: ela personifica parte do inimigo do guarda fiscal, seu esposo. São assim as instituições: frias, desumanizadas, implacáveis. “Meus senhores, acabaram de receber a vossa missão, numa acção imprevista e importante. A partir deste momento, cuidado com as conversas com quem quer que seja, mesmo com as vossas mulheres. Sabem como numa conversa de solheiro podem, inadvertidamente, denunciar as nossas intenções, ou como uma simples ida à mercearia pode ser indício duma actividade que se avizinha...”.  Isto é, à semelhança do que dizia um idoso, a rir de si próprio, “os velhos nunca haviam de nascer”, assim se sugere na atribuição da missão:  “para bem do fisco, era bom que as mulheres dos guardas fiscais não existissem”. O guarda fiscal entrará em casa sorumbático, sem tema de conversa, distante. A  mulher estranhará “homem, que se passa, vais sair para alguma daquelas operações?”, e ele “não, nada disso, estou apenas um pouco cansado...” À noite, quase em segredo, o guarda fiscal preparará o saco com algum alimento, vestirá a roupa apropriada e dirá, secamente, “talvez esteja de volta lá pr’às seis”. A mulher do guarda fiscal sangrou por dentro nas primeiras noites. Depois, conhecidas as razões da condição, dispôs-se, na plenitude do seu ser, a uma conformação submissa, para bem da Fazenda Nacional e lustre da Folha de Serviço de seu marido.
   Deixo a outro qualquer leitor a continuação desta história de vida e de dívida para com um sempre desprezado  interveniente activo na nobre e patriótica missão da Guarda Fiscal. Para já, depois de ter dito o que disse, creio não ficarem dúvidas de que a mulher do guarda fiscal mais merecedora é de uma estátua do que o S. Mateus. Quod erat demonstrandum.

Manuel Antunes Neto

 
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