Armamento
Armamento da Guarda Fiscal no século XIX

Com o decreto n.º 4 de 17 de Setembro de 1885 o Corpo da Guarda Fiscal substituiu a força até então empregue na fiscalização externa das alfândegas. O respectivo pessoal bem como as instalações e armamento foram transferidos para esta nova Instituição.

O mesmo diploma legal especifica no seu artigo 116.º e tabela n.º 5 qual o armamento, munições e artigos de equipamento que deviam pertencer aos oficiais e às praças a pé e a cavalo. Refere ainda que o Estado devia ser o seu fornecedor e estabelece normas para a respectiva utilização e manutenção.

Só mais tarde, por decreto de 5 de Agosto de 1886, foi definido qual o tipo de armamento e equipamento que devia ser posto à disposição da Guarda Fiscal, por se ter então considerado que a nomenclatura utilizada inicialmente não estava de acordo com a do exército e que, em virtude de fazer parte das forças militares do reino, devia acompanhar a evolução destes meios que ali se fizesse sentir, nomeadamente quanto ao armamento.

Foi estabelecido que:

Os oficiais da Guarda Fiscal passavam a usar espada de padrão adoptado na arma de cavalaria e revólver Abadie.

revólver Abadie 9,1 mm  m/1878O revólver Abadie é de origem belga, produzidos por L. Soleil et Fils, de Liège. De calibre 9,1 mm, usava ainda cartuchos de pólvora negra e era de muita boa construção, seguro e preciso.
Na gravura o de cano mais curto é o m/1878, para oficiais.
O outro, praticamente igual mas de cano um pouco mais comprido, é o m/1886 e foi destinado para praças.
No Museu da Guarda Fiscal estavam expostos 2 revólveres Abadie 9 mm m/1886, o que faz supor que também foram utilizados na GF. 

O armamento fornecido às”praças de pret” (a cavalo) era o constanta da tabela n.º 1 - carabina Snider para cavalaria, 14 mm, m/1873 e espada com baínha m/1872.

carabina Snider para cavalaria, 14 mm - m/1873

O armamento às “praças de pret” (a pé) que prestavam serviço no interior do país era o armamento constante da tabela n.º 2 - carabina Snider para artilharia de calibre 14 mm m/1875 e terçado com baínha para corneteiro ou tambor m/1877.

carabina Snider para artilharia, 14 mmm/1873

As Enfield de 14,7 mm - Espingarda de infantaria m/1859, Carabina de caçadores m/1859 e Carabina de artilharia m/1860 – são armas de antecarga e foram adquiridas a partir de 1859, em Inglaterra e na Bélgica e também produzidas no Arsenal do Exército. Equiparam o exército português durante um curto período de tempo em virtude do aparecimento das armas de rectrocarga.

espingarda Enfield de 14,7 mm m/1859

pormenor Snider com coroa e GP (Governo Português)As espingardas e carabinas Snider, que resultam da transformação das Enfield, foram adquiridas novas em Inglaterra e também modificadas em Portugal, na Fábrica de Armas do Arsenal do Exército. Foram as primeiras armas de retrocarga e cartucho metálico adoptadas no Exército. Esta armas eram identificadas pela coroa portuguesa e pelas letras GP
Foram armas de transição devido ao rápido advento das espingardas de repetição.
Duas aguarelas, cujos originais se encontram no Arquivo Histórico Militar, da autoria do Coronel Ribeiro Arthur mostram armamento utilizado pela Guarda Fiscal em1890.

Guarda Fiscal em pequeno uniforme  armado c/ Enfield  14 mmoficial de cavalaria da Guarda Fiscal com espada e baínha

A primeira das aguarelas mostra um soldado da Guarda Fiscal em pequeno uniforme com uma arma e o repectivo sabre no cinto.
Não se identifica a arma em causa, que não é nenhuma das constantes do decreto de 5 de Agosto de 1886.
Poderá ser uma das armas transferidas do serviço de fiscalização externa das Alfândegas quando da criação da Guarda Fiscal, talvez uma Enfield de 14,7mm, sobretudo pelo formato do sabre representado.
A segunda aguarela mostra um oficial de cavalaria da Guarda Fiscal com espada e baínha


As “praças de pret” (a cavalo ou a pé) que fizessem serviço de fiscalização na raia deviam usar, “respectivamente, das armas de repetição que fossem distribuidas às armas de cavalaria ou infantaria do exército ativo”.

A arma de repetição adoptada pelo exército foi a espingarda Kropatschek de 8mm, fabricada pela firma austríaca OEWEG, de Steyr, e foi considerada uma arma de grande qualidade. Estava marcada com a coroa e as letras L 1º.

carabina Kropatschek de 8 mm m/1889 - carabina Kropatschek de 8 mm - espingarda Kropatschek de 8 mm m/1886 91

Tiveram a seguinta designação oficial: (foto9)pormenor Kropatschek de 8 mm
• Espingarda de 8 mm (K) m/1886 (Para infantaria);
• Carabina de 8 mm (K) m/1886 (Para caçadores);
• Carabina de 8 mm (K) m/1886 (Para cavalaria);
• Carabina de 8 mm (K) m/1889 (Para sapadores, engenharia e GF);
• Carabina de 8 mm (K) m/1886 91 (Para artilharia);
• Espingarda de 8 mm (K) m/1886 99 (Para infantaria).

Guarda Fiscal com carabina Kropatschekpormenor Kropatschek de 8 mm c/ coroa portuguesa e L Iº (Luis I)As armas adquiridas em 1888 para a Guarda Fiscal faziam parte de um lote de 4800 carabinas também destinadas aos sapadores e engenharia.
Parece que a Instituição foi dotada também de carabinas de 8mm m/1886/91 e espingardas de 8mm m/1886/99.
Uma fotografia mostra uma praça da Guarda Fiscal com uniforme do Plano de Uniformes de 1893, armada com uma carabina Kropatschek.
Na outra mostra a gravação que todas as Kropatschek destinadas a Portugal apresentavam: uma coroa e L Iº (Luis I)

 
Armamento da Guarda Fiscal no século XX

Exército

O armamento continuou a evoluir de acordo com a tecnologia que já se fazia sentir e que depois foi fortemente influenciada pelos dois conflitos mundiais ocorridos na primeira metade do século vinte e também pela guerra colonial que teve o seu início nos anos sessenta.
No que respeita ao armamento ligeiro adquirido pelo Exército – espingardas - as principais alterações foram as seguintes:
Em 1894 foram adquiridas carabinas Mannlicher de 6,5 mm, também produzida pela Steyr, em quantidade reduzida, e foi nomeada uma comissão para escolha da arma sucessora da Kropaschek .
A escolha recaiu na Mauser M 98, construída pela firma alemã DWM, que em Portugal passou a ser designada por espingarda Mauser 6,5 mm, m/904 e conhecida em todo o mundo por Mauser-Vergueiro por ter sido nela aplicada uma culatra desenhada pelo capitão de infantaria Alberto José Vergueiro, o que melhorou a sua capacidade. Uma parte foi transformada para calibre de 7,92 mm na Fábrica de Braço de Prata, em 1939.
espingarda Mauser 6,5 mm m/1904 - espingarda Mauser 7,92mm. m/1904-39
 
Em 1917, em França, o Corpo Expedicionário Português recebeu armamento e equipamento semelhante ao do exército Britânico em cujo sector se integrou. A espingarda Lee Enfield de calibre 7,7 mm substituiu as Mauser 6,5 mm que equipavam o restante Exército português.
Quando do regresso, no fim do conflito, acompanharam os militares Portugueses e passaram a fazer parte do armamento do exército.
espingarda Lee Enfield de calibre 7,7 mm
Em 1937 começaram a ser adquiridas mais espingardas na firma Alemã DWM que tinha fabricado as Mauser m/904, desta vez de calibre de 7,92 mm, que só foram substituídas em 1961 pelas G3. Foi-lhe atribuida a designação oficiial de espingarda Mauser 7,92mm. m/1937.
espingarda Mauser 7,92mm m/1937
 
As espingardas M/961 G3A1 foram adquiridas em 1961 e ainda não foram substituídas.  
espingarda G3A1 m/1963
 
 
Quanto a pistolas e a seguir aos revóveres Abadie, as aquisições mais importantes feitas pelo Exército foram as seguintes:
 
Em 1908 chegaram a Portugal Lugger Parabellum de 7,65 mm iguais às que equipavam o exército alemão.
Em 1915, nos EUA e na Savage Arms Company foram adquiridas pistolas de calibre 7,65 mm da marca Savage que foram atribuídas aos oficiais e sargentos que seguiram para França em 1917. Quando do regresso do CEP, estas armas foram distribuidas às forças de segurança e aos guardas nocturnos.
Em 1943 o Exército recebeu pistolas 9mm Lugger Parabellum P08 do exército alemão.
A última grande aquisição de pistolas teve lugar em 1961, à firma Carl Walther Waffenfabrik, da P38 de 9mm Parabellum.

pistola Savage 7,65 mm m/1915 pistola 9mm Lugger Parabellum P08pistola Walther 9 mm m/1961

 

Quanto a pistolas metralhadoras o exército adquiriu a Steyr de 9mm em 1942.

pistola-metralhadora Steyr 9mm m/1942

Guarda Fiscal

A arma que substituiu a Kropatschek foi a Mauser-Vergueiro de 6,5 mm m/1904, posteriormente transformada, em 1939, para calibre 7,92
No entanto em 1931, ainda existiam ao serviço as Kropatschek de 6,5 mm de 1886 e 1891, para além das Mauser 6,5 mm, m/1904.
Posteriormente foi dotada com a espingarda Mauser 7,92 m/1937 que se manteve até ao fornecimento das espingardas automáticas G3.


Quanto às pistolas, os revólveres Abadie de 1886 mantiveram em serviço até 1955 e 1956, quando foram adquiridas 800 pistolas Walther de calibre 7,65 e 2.200 pistolas Star do mesmo calibre.

pistola Walther 7,65 mm m/1955 pistola Star 7,65mm m/1955

Após o regresso do CEP as pistolas Savage m/915 foram distribuídas pelas forças de segurança e guardas nocturnos. O número destas armas que chegaram à Guarda Fiscal não influenciou o armamento disponível.
Em 1955 os Abadie de 1878, para oficiais, já tinham sido substituídos por 180 pistolas Mauser entretanto adquiridas.

Em 1957, com a finalidade de uniformizar o calibre das armas da GF com as do Exército foram adquiridas 1850 pistolas STAR cal. 9mm. Posteriormente foram ainda adquiridas Pistolas Walther cal.9mm m/961.

pistola Star 9 mm m/1957 pistola Mauser 7,63 mm

Em 1955 e 1956 foram adquiridas 150 pistolas-metralhadoras Madsen de calibre 9 mm.. Posteriormente foram ainda adquiridas pistolas-metralhadoras Steyr m/1942 também do mesmo calibre e já existentes no Exército.

pistola-metralhadora Madsen 9mm m/1955

 pistola-metralhadora Steyr 9mm m/1942

 
Quadro do armamento individual da Guarda Fiscal desde 1885

O quadro seguinte apresenta o armamento individual da Guarda Fiscal desde 1885

Armamento individual da Guarda Fiscal desde 1885

 
Fontes de Consulta

Este artigo teve como base os seguintes documentos e publicações:

  • Relatório da visita de inspecção levada a efeito pelo Comandante Geral da Guarda Fiscal nos anos de 1933 e 1934 em todo o dispositivo da Guarda Fiscal de Portugal Continental.
  • Este relatório tem a data de Novembro de 1934 e foi entregue ao Ministro das Finanças.
  • Plano de Reapetrechamento para a Guarda Fiscal de 27 de Dezembro de 1957.
  • O artigo “As Indústrias Militares e as Armas de Fogo Portáteis no Exército Português” do Major General Renato Fernando Marques Pinto, publicado em 28 de Maio de 2010 na Revista Militar (http://www.revistamilitar.pt).
  • Relação do material existente no Museu da Guarda Fiscal em 1986.
  • “Tecnologia e armamento” e “Inovação tecnológica e defesa” de António José Telo em “História Militar de Portugal”, direcção de Manuel Themudo Barata e Nuno Severiano Teixeira.
  • Wikipédia - http://pt.wikipedia.org/