Autores

Cor Gamboa Marques
Cor Silva Vitória

Agradecimentos

Figuras e Factos O Guarda Fiscal (2)
O Guarda Fiscal (2)

A noite é fria e a serra agreste.
Pelo trilho do luar
Ele passa.
Pelas rótas rotas do mar
Em noite de temporal
Ele está.
Do cimo da arriba
Junto aos ninhos do vento
Ele vela.
Das sombras feitas fantasmas,
Estevas feitas galeras,
Falésias de multidões,
O homem,
Grande ou pequeno,
Simples, pobre,
Guarda.

Quando, nas longas noites de frio,
Em mares de solidão,
Com o vento que anavalha as fragas

E apouca a cria e a fera,
Do saco do desconforto,
Tirar a côdea gelada
Da broa bem amargada,
Ensopada só de esperança,
Aguada da madrugada,
Espera.
Quando o vento virar,
Encontrará a paga
Das patrulhas sem esperança
Nas madrugadas do medo.
Insónias de demente
Com olhos marejados
Das trinta moedas de oiro
Com que o querem comprar.
Surgirá a esperança
No dia que recomeça.
Qual giesta que vergada
Continua alevantada.
E no tempo que nunca teve

Romperá a madrugada
No filho que gerou,
Livre, pelo seu suor,
Por caminhos de medo
Nunca irá passar.

Pela Pátria que é sua,
Pela Lei que assegura,
Fronteiras de vento norte,
Só,
Sem ninguém,
Aguenta.
Sofre e vive
Morre e renasce.
Espera e desespera
Dos faunos da miséria,
Abutres empoleirados
Nos escombros calcinados
Desta terra.

Poema da autoria do então Major de Cavalaria João Sena, publicado na Revista da Guarda Fiscal - 2.ª Série, n.º21 de Setembro de 1986.